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Enjoo na gravidez: Entenda quando ocorre e como tratar

Enjoo na gravidez. Gestante passando mal com enjoo.
10 minutos de leitura

O enjoo é um dos sintomas mais comuns da gravidez, sendo relatado por cerca de 50 a 80% das mulheres. A gestação é um período que promove muitas mudanças no corpo feminino, tanto estruturais quanto hormonais, podendo ocasionar alguns efeitos adversos para as mães, nos quais os sintomas de enjoo se enquadram.

Essa desordem é tão comum entre o público de gestantes, que os “enjoos matinais” são popularmente conhecidos como um dos primeiros indicativos de gravidez. No entanto, relacionar a sensação somente ao período da manhã não é o correto, pois 98% das mulheres  afetadas relatam sentir enjoos ao longo de todo o dia.

Quando começa a sentir enjoo na gravidez?

Os sintomas comumente iniciam entre as primeiras  2 a 4 semanas semanas, com seu pico entre 9 a 16 semanas. Normalmente os enjoos persistem até 22 semanas, entretanto 10% das grávidas são acometidas até o final dos nove meses.

O enjoo na gravidez é normal?

O enjoo é uma condição comum entre as mulheres grávidas. Apesar de consideradas como parte normal do período de gestação, as náuseas podem reduzir muito a qualidade de vida da mãe, afetando negativamente seu trabalho, atividades diárias, maternidade e relações familiares.

A severidade do enjoo varia de leve a moderado, chegando ao vômito. A situação é considerada patológica somente nos casos de hiperêmese gravídica, caracterizada pela ocorrência de náuseas severas e vômitos recorrentes. Somente 0,3 a 2% das mães são acometidas por essa forma grave.

O que causa enjoo na gravidez?

Existem múltiplas causas que podem ocasionar esse sintoma. Confira na lista abaixo:

1. Gonadotrofina Coriônica Humana (hCG)

A gonadotrofina coriônica humana (hCG) é um hormônio que aumenta sua concentração rapidamente durante o início da gravidez. Sua principal função é a manutenção da gestação ao longo do primeiro trimestre, inibindo a menstruação e uma nova ovulação.

O pico dos sintomas de enjoo está diretamente relacionado ao pico das concentrações de hCG no corpo feminino, sendo que este último ocorre entre 9 a 12 semanas. Ao longo das semanas seguintes, os níveis do hormônio se estabilizam e diminuem, ocorrendo o mesmo com a sensação de enjoo.

Os sintomas também são piores em mulheres em condições associadas a níveis mais altos de hCG, como gravidez molar, múltiplas gestações, Síndrome de Down e quando o bebê é do sexo feminino.

2. Problemas gastrointestinais

As mudanças no corpo feminino durante os 9 meses de gestação levam a alterações gastrointestinais, que afetam a digestão e evacuação habitual. O aumento dos níveis dos hormônios estrogênio e progesterona, junto com as alterações estruturais pelo crescimento do bebê, são os principais responsáveis.

Ocorre uma diminuição no ritmo dos órgãos relacionados à digestão. Consequentemente aumentando o tempo de esvaziamento do estômago após a refeição, bem como aumentando o tempo de permanência do alimento no intestino.

Essa alteração no ritmo pode causar pirose, refluxo gastroesofágico, constipação e náuseas.   

3. Heliobacter pylori

A Heliobacter pylori ou H. pylori é uma bactéria que acomete o estômago, levando a quadros de gastrite e úlcera. A bactéria ataca a parede do órgão, retirando a proteção do corpo contra o próprio ácido clorídrico que produzimos para auxiliar a digestão.

Dentre os sintomas comuns da gastrite e úlcera, estão as náuseas. Mulheres que já apresentam os sintomas antes da gravidez ou com quadros de infecção por H. pylori nos familiares próximos devem ficar atentas. 

4. Predisposição genética

Esse fator tem impacto maior nos casos graves de enjoo e vômito, como a hiperêmese gravídica. Mulheres com familiares próximos que apresentaram a condição, como mães e avós, têm maiores riscos de desenvolverem os mesmos sintomas na gravidez.

O mesmo também é válido para mulheres que foram acometidas em gestações passadas, com maiores chances de apresentarem os mesmos sintomas caso engravidem novamente.

O que comer para aliviar o enjoo na gravidez?

As causas de enjoo durante os 9 meses não estão diretamente relacionadas a alimentação materna, entretanto algumas mudanças no estilo de vida da mãe auxiliam no alívio dos sintomas. Confira a lista abaixo:

Enjoo na gravidez. Gestante comendo salada.

1. Diminuir as porções de comida

As necessidades de energia da mulher estão aumentadas durante a gravidez. Isso se reflete no próprio aumento natural da apetite. No entanto, consumir grandes volumes de comida em uma única refeição dificulta uma digestão que já está  mais lenta, aumentando as chances de náuseas.

O recomendado é porcionar as suas refeições habituais em quantidades menores, ou seja, fazer mais refeições ao longo do dia com quantidades menores de comida. 

2. Fazer refeições mais leves

Nesse momento mais sensível, evitar alguns alimentos nas refeições previne a piora dos sintomas de enjoo. Evite principalmente molhos ácidos, alimentos gordurosos e frituras, temperos muito fortes e café. Esses alimentos podem irritar os órgãos digestivos.

Prefira formas de cocção que não necessitem de muito óleo, como cozidos ou assados.

3. Garantir o aporte protéico nas refeições

Junto das recomendações acima, garantir que as refeições sejam ricas em proteínas contribui para a redução da condição de náusea. As fontes protéicas variam entre vegetais e animais, sempre preferindo as opções com menor percentual de gordura. Dois exemplos são frango e grão de bico.

Os suplementos de proteína em pó, popularmente conhecidos como whey protein, são seguros para serem consumidos durante esse período. Podem ser utilizadas para incrementar lanches e refeições doces, que não seriam ricas em proteínas naturalmente.

4. Ingerir pequenas quantidades de líquidos entre as refeições

A mesma regra sobre dividir as grandes refeições em porções menores vale para os líquidos: consuma em quantidades menores distribuídas ao longo do dia. Prefira consumir líquidos entre as refeições e não ao mesmo tempo.

É essencial que a mãe se mantenha hidratada. Caso ocorra episódios de vômito, essa atenção é redobrada. Em alguns casos é indicada a ingestão de bebidas com repositores de eletrólitos ou água de coco.

5. Alimentos gelados

Consumir alimentos gelados alivia a sensação de enjoo, sendo uma estratégia que pode auxiliar as gestantes que reduziram o consumo alimentar devido a condição. 

As recomendações acima ainda são válidas, então evite alimentos muito gordurosos como os sorvetes. Algumas dicas de preparações para substituir o produto são:

  • Sorvete feito com banana congelada e iogurte natural. Outras frutas podem ser adicionadas para diversificar os sabores;
  • Picolé feito com suco de fruta e água de coco.

6. Fazer lanches leves antes de levantar

Nas manhãs ao acordar, antes de levantar da cama é recomendado que as mães acometidas por náuseas realizem um pequeno lanche, composto por algum alimento leve e seco. Algumas indicações são bolacha de água e sal, torradas ou bolachas de arroz.

O que fazer para melhorar o enjoo na gravidez?

De acordo com o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), as formas de tratamento para os sintomas de enjoo sempre começam com as práticas naturais ou não-farmacológicas. 

Enjoo na gravidez. Gestante fazendo um coração com as mãos sobre a barriga.

Formas naturais de aliviar o enjoo na gravidez

1. Gengibre

O gengibre possui propriedades que exercem diversas funções benéficas para o momento da gravidez. Além de aliviar os sintomas de enjoo, melhora o ritmo dos órgão envolvidos na digestão e inibe o crescimento da H. pylori. 

A recomendação é o consumo do gengibre em cápsulas de 250mg de três a quatro vezes ao dia, dependendo da gravidade dos sintomas. No entanto, também pode ser incluído na alimentação na forma de chá, tempero, cru ou em pó.

2. Acupuntura

A prática de acupuntura, especificamente quando aplicada ao ponto pericárdio 6 ou P6, alivia sintomas de enjoo, ânsia e vômito. O efeito também foi observado em outras populações, como pacientes em quimioterapia.

O ponto é localizado no antebraço, entre os tendões e aproximadamente 3 dedos de distância do punho. A estimulação elétrica neural transcutânea no mesmo ponto também exerce efeito similar.

3. Vitamina B6

A vitamina B6 ou piridoxina é um micronutriente com diversas funções em nosso organismo, participando do metabolismo de carboidratos, lipídeos e, principalmente, proteínas. 

No tratamento do enjoo a suplementação da vitamina em doses iniciais de 10 a 25 mg de três a quatro vezes ao dia, dependendo da severidade, alivia os sintomas de forma eficaz.

Durante a gravidez as recomendações diárias da vitamina aumentam de 1,3 mcg/dia para 1,9 mcg/dia, portanto é importante garantir a ingestão adequada, mesmo nos casos onde não é usado para tratamento de náuseas.

Diversos alimentos vegetais e animais são boas fontes da vitamina B6. Dentre as de origem animal, as principais são carne bovina, salmão e frango. No caso das vegetais, está presente em diversos legumes, verduras, frutas, grãos integrais e castanhas, principalmente banana, grão-de-bico, nozes e batatas.

6. Mudanças na alimentação

As alterações na alimentação citadas anteriormente auxiliam no alívio dos sintomas de náusea e devem ser as primeiras medidas adotadas:

  • Dividir as refeições em porções menores ao longo do dia;
  • Fazer refeições mais leves, evitando alimentos muito gordurosos ou temperados;
  • Garantir o aporte protéico nas refeições;
  • Ingerir líquidos entre as refeições e em pequenas quantidades;
  • Consumir alimentos gelados;
  • Fazer lanches leves antes de levantar.

Remédios para tratar o enjoo na gravidez

Em casos mais graves ou persistentes, existe a possibilidade de utilizar medicamentos como antieméticos, anti-histamínicos,  entre outros. Essa decisão é realizada pelo médico. Não tome medicamentos por conta própria, muitos têm efeitos adversos na gravidez.

Como prevenir o enjoo na gravidez?

É possível prevenir os sintomas. A suplementação com complexos de vitaminas e minerais pelo menos 1 mês antes de engravidar garante que o estado nutricional da mãe esteja adequado, principalmente no caso dos níveis da vitamina B6.

Quer saber mais?

Referências

Committee on Practice Bulletins-Obstetrics. ACOG Practice Bulletin No. 189: Nausea And Vomiting Of Pregnancy. Obstet Gynecol. 2018 Jan;131(1):e15-e30. doi: 10.1097/AOG.0000000000002456. 

Bustos M, Venkataramanan R, Caritis S. Nausea and vomiting of pregnancy – What’s new? Auton Neurosci. 2017 Jan;202:62-72. doi: 10.1016/j.autneu.2016.05.002. 

Gropper S, Smith J, Groff J. Nutrição avançada e metabolismo humano. São Paulo: Cengage Learning; 2012.

Graduanda em Nutrição pela Universidade de São Paulo (USP).

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