Os tratamentos médicos avançam em conjunto com as descobertas científicas e a tecnologia, permitindo maiores possibilidades de tratamento e qualidade de vida para pacientes acometidos com variados tipos de doenças.

Mas antes, saiba um pouco mais do que é ômega 3, no vídeo da Dra Priscila Gontijo:

Para o câncer, uma das maiores causas de morte no mundo, a evolução constante da ciência dos alimentos e tecnologia em saúde é sempre uma vitória significativa tanto para os profissionais da saúde quanto para quem enfrenta esse mal.

No tratamento do câncer, um nutriente tem ganhado destaque e a valorização por profissionais da saúde que cuidam da nutrição desses pacientes: o ômega 3. Que tal entender como esse composto atua no tratamento do câncer?

Ômega 3 - Tudo o que você precisa saber.

1- Ômega 3: o que é esse ácido graxo essencial?

O ômega 3 é um nutriente do grupo dos ácidos graxos, que também são popularmente chamadas de gorduras. Os ácidos graxos são divididos em três tipos diferentes: saturados, monoinsaturados e poli-insaturados, sendo o ômega 3 classificado como esse último.

Há três tipos de ômega 3 com nomenclatura já bastante popular no mercado de nutrição, são eles: o ácido alfa-linolênico (ALA), o ácido docosahexaenoico (DHA) e o ácido eicosapentaenoico (EPA). Todos são responsáveis pelas características nutricionais benéficas desse tipo de gordura para a saúde humana, que atua desde na nossa saúde cardiovascular, na formação neurocerebral e também na proteção contra a ação de radicais livres.

Considerado um ácido graxo essencial, ou seja, que é indispensável para a manutenção da saúde humana, o ômega 3 não é produzido por nosso organismo. Por isso, ele precisa ser adquirido através da alimentação, após o consumo de alimentos fonte desse ácido graxo.

O ômega 3 é um nutriente facilmente encontrado em peixes de água fria, em sementes como a chia ou a linhaça e em alguns óleos do tipo vegetal. Ele pode também ser consumido isoladamente, no formato de cápsulas ou xaropes.

2- Câncer: como essa doença afeta o aspecto nutricional de um paciente?

O câncer é uma doença desenvolvida a partir de uma falha na multiplicação celular de algum tecido corporal, levando a um crescimento descontrolado e não padronizado de células, caracterizado como um tumor com características malignas, isso resulta no desenvolvimento de vários sintomas no organismo, os quais variam de acordo com o local onde o tumor se instala.

Por ter como sua principal característica a mutação e produção desenfreada de células, o câncer é uma doença que tem como um de seus principais sintomas o consumo elevado de energia corporal, levando o paciente a desenvolver um quadro de desnutrição de acordo com o avanço da doença.

O consumo rápido de energia corporal faz com que o corpo trabalhe de maneira urgente para mobilizar suas reservas energéticas em busca da sobrevivência. Por isso, além das reservas de gordura corporais, tradicionalmente mobilizadas para produção de energia, o corpo começa a utilizar de reservas proteicas quando o quadro clínico está muito avançado, iniciando um processo de catabolismo intenso que resulta na caquexia.

A caquexia é um quadro extremo de enfraquecimento corporal, causado pelo uso intenso de todas as reservas corporais e um processo não controlado de desnutrição. Além do aspecto magro e frágil, o paciente apresenta constante sensação de cansaço e falta de ânimo, apetite e força.

O tratamento do câncer também é um fator que pode levar a um gasto energético ainda maior desse paciente, visto que terapias como a radioterapia, imunoterapia, quimioterapia e cirurgias também podem afetar o estado nutricional do indivíduo.

Por conta de todos esses fatores – e com o intuito de controlar e evitar o avanço da desnutrição relacionada ao câncer – o tratamento nutricional é um aspecto indispensável do acompanhamento e recuperação do paciente com o diagnóstico da doença. Conhecer como oferecer alimentação eficiente para esse indivíduo e, principalmente, quais são os nutrientes que podem ajudar a controlar aspectos da doença, são cuidados essenciais de qualquer equipe de oncologia.

Ômega 3 e Câncer: relação entre consumo e tratamento

Mas por onde começa a relação entre o tratamento de câncer e o consumo de ômega 3? Tudo pode ser explicado por uma característica muito comum dessa doença, mas que muitas vezes é esquecida e deixada em segundo plano por conta da assustadora capacidade da doença em se alastrar: a inflamação.

A formação de qualquer tipo de tumor maligno tem uma relação forte com um processo de inflamação desenvolvido pelo corpo. Esse processo inflamatório pode ser iniciado por conta de diversos fatores, que variam entre quadros de obesidade, ação de radicais livres no organismo e desenvolvimento de doenças crônicas não tratadas corretamente. O processo inflamatório constante e intenso pode ser um dos vários fatores que desencadeiam o desenvolvimento de algum tipo de câncer em algum tecido do corpo. Além disso, a própria manifestação do câncer pode ser responsável pelo aumento da produção de marcadores inflamatórios no organismo humano.

O ômega 3, por sua vez, tem como uma de suas principais características metabólicas a capacidade de atuar diretamente no controle de processos inflamatórios, situação que, para muitos especialistas em oncologia, pode ser extremamente positivo para o tratamento da doença. A ingestão isolada dessa gordura essencial, entretanto, não parece ser suficiente para inibir o desenvolvimento dessa doença.

O consumo de ômega 3 deve estar inserido em um contexto de alimentação balanceada, que é a base para qualquer tratamento clínico de sucesso. Por isso, orientação nutricional, suplementação adequada de ômega 3 e tratamento médico devem andar juntos.

Além da importante resposta anti-inflamatória (que pode ser protetora contra o câncer), o ômega 3 também pode ter ação específica no tratamento e melhora clínica de pacientes com cinco tipos de câncer específicos: de mama, de ovário, de próstata, de pulmão e do trato digestório. Que tal entender como ele atua em cada um dos casos?

Ômega 3 e câncer de mama

O câncer de mama é uma das doenças que mais acomete – e mata – mulheres em todo o mundo. Ele é uma manifestação dessa doença que tem intensa relação com o diagnóstico de obesidade em pacientes – uma doença que tem fortes características inflamatórias como um de seus sintomas. O uso do ômega 3 no tratamento do câncer de mama é visto como importante aliado do organismo, auxiliando a controlar aspectos metabólicos dessa doença.

Uma revisão literária feita por profissionais da Universidade de Medicina em Lisboa conseguiu explorar estudos que mostravam efeitos positivos do consumo de ômega 3 no tratamento do câncer de mama. Tanto em estudos feitos com animais, quanto aqueles realizados em grupos de pacientes em tratamento do câncer, foi possível observar que a suplementação de ômega 3 atuou na supressão do desenvolvimento do tumor, como também promoveu ação protetora, reduzindo os riscos de manifestação da doença.

Outra revisão bibliográfica feita sobre o mesmo tema mostrou a ação do ômega 3 no controle dos quadros de fadiga desenvolvidos por pacientes com câncer de mama. A suplementação desse ácido graxo mostrou fortes evidências de melhora em pacientes que relatavam fadiga intensa após o diagnóstico de câncer.

Ômega 3 e câncer de ovário

Muitas das ações que o ômega 3 consegue promover na nossa saúde são mediadas por receptores específicos desse composto que nossas células e tecidos contém em suas estruturas. Por conta desses receptores específicos é que o ômega 3 também consegue agir como inibidor do desenvolvimento de câncer em tecidos como a mama, próstata e ovário.

Um estudo de laboratório feito pelo departamento de ciências farmacêuticas da Universidade do Estado de Washington testou a resposta das células cancerígenas do ovário à presença do ômega 3. Eles puderam perceber que a presença dos receptores específicos para ômega 3 nas células ovarianas, facilitou a ação antitumoral desse nutriente. Dessa maneira, foi possível constatar que o ômega 3 pode atuar como um importante aliado nas terapias e tratamentos para o câncer de ovário.

Ômega 3 e câncer de próstata

Um dos tipos de câncer mais diagnosticados no mundo, o câncer de próstata, é outra manifestação dessa grave doença que pode ser beneficiada com a suplementação e tratamento com ômega 3.

Os mesmos receptores celulares para ômega 3 que são encontradas nas células do ovário (e que permitem a atuação antitumoral desse ácido graxo no organismo), também existem nas células da próstata. Por isso, a suplementação com ômega 3 também é uma terapia que pode ser aplicada no tratamento desse tipo de câncer.

Um estudo que está em andamento, feito pela Universidade Laval, em Quebec City, com 130 homens em tratamento para câncer de próstata avalia a eficiência da suplementação de ômega 3 nesses indivíduos. Os pacientes consumiam cápsulas de ômega 3 entre 4 e 10 semanas antes da realização da prostectomia e continuavam com esse consumo por até um ano após a cirurgia. A expectativa dos pesquisadores é encontrar mudanças significativas nos marcadores de inflamação no sangue, assim como melhora na qualidade de vida dos pacientes (redução de problemas com o sono, quadros de ansiedade, fadiga e depressão).

Ômega 3 e câncer de pulmão

O câncer de pulmão é uma doença que tem em seu desenvolvimento uma grande relação com fatores biológicos do indivíduo que manifesta a doença, mas também ambientais, que tem relação com a rotina de hábitos e local onde o paciente vive.

Poluição, tabagismo, alimentação irregular e sedentarismo são alguns desses fatores não genéticos que podem ser apontados como responsáveis pelo aumento da predisposição ao desenvolvimento dessa doença. Todos eles, de maneira geral, aumentam a produção de radicais livres, que atuam prejudicialmente nas células de todo o corpo – em especial, no tecido pulmonar.

O ômega 3 conta com uma importante característica antioxidante que pode ser relevante no controle da ação desses compostos prejudiciais. Uma revisão bibliográfica realizada sobre a ação de suplementos alimentares na saúde do sistema respiratório reforça esse efeito positivo do ácido graxo. Anulando o efeito dos radicais livres, o ômega 3 ajuda na melhora da qualidade de vida do paciente e também atua com efeito preventivo no desenvolvimento de novas lesões em células saudáveis.

Ômega 3 e câncer no trato digestório (fígado, pâncreas, intestino)

O câncer pode atingir diferentes órgãos no trato gastrointestinal de um indivíduo. Entretanto, dois se beneficiam do tratamento nutricional com ômega 3: o pâncreas e o intestino.

A suplementação precoce de ômega 3 em pacientes com diagnóstico de câncer gastrointestinal, além de aumentar a função imunológica do indivíduo, também parece ter ação anti-tumoral, auxiliando no controle do crescimento das células. Isso foi o que relatou a meta-análise feita com estudos randomizados na China, sobre o efeito da suplementação de ômega 3 na dieta parenteral de indivíduos com câncer gástrico.

Para pacientes com diagnóstico de câncer pancreático, o benefício da suplementação de ômega-3 na dieta parece ir além. Um estudo feito pelo departamento de cirurgia da Escola de Medicina Jikei, em Tóquio, avaliou 27 pacientes com câncer pancreático em quimioterapia, que tiveram sua dieta enteral suplementada com ômega-3 por 4 semanas. Esses indivíduos conseguiram combater o avanço do quadro de caquexia, que é avançado e grave nesse tipo específico de câncer, aumentando significativamente sua massa muscular esquelética no período das 4 semanas.

Conclusão

Como discutimos inicialmente nesse material, a alimentação é um aspecto que tem grande relação com a manutenção da qualidade de vida de um indivíduo, mas que também atua em benefício de tratamentos clínicos de doenças como o câncer.

O uso do ômega 3 como uma das terapias utilizadas no tratamento dessa doença ainda é assunto de muita discussão e pesquisa por parte da ciência médica. Entretanto, os benefícios apresentados nesse material mostram a capacidade que esse nutriente tem de atuar preventivamente e ativamente no controle de alguns tipos de câncer. Ainda existem muitas possibilidades de descoberta quando o assunto é o uso do ômega 3 nesse cenário e, por isso, as expectativas de especialistas no tema são muito positivas.

De qualquer maneira, a suplementação isolada de ômega 3 não parece ser um fator suficiente para tratar os sintomas da doença, como também prevenir seu desenvolvimento. O consumo de ômega 3 precisa fazer parte de todo um cuidado nutricional, que começa com a valorização de uma alimentação equilibrada e com grande variedade de nutrientes, que vão servir como base para a atuação benéfica do ácido graxo no organismo humano.

Por isso, o acompanhamento nutricional é um cuidado que qualquer pessoa deve valorizar para garantir o tratamento eficiente de um possível quadro de câncer, como também para atuar na prevenção dessa doença em pessoas de qualquer idade.